A
Visão barroca e a do Barroco Brasileiro: O encontro no teatro.
Professor
José Renato Noronha (UFSM)
Comecei a tratar
deste assunto antes de ter lido qualquer trecho de alguma das peças do Padre
José de Anchieta, o que fiz no decorrer da construção deste texto. Neste
contexto, deixei de lado obras de outros dramaturgos padres que aqui aportaram:
Padre Manuel da Nóbrega, Padre Antonio Vieira ou de algum dos outros jesuítas
que podem ter ficado na memória de suas “missões”. Todos chegaram aqui no
continente americano para construir e defender uma idéia política e espiritual a
partir da ótica que possuíam de mundo, e construíam assim a sua tendência em um
momento que algumas regiões da Europa viviam os efeitos dos movimentos da
Reforma e Contra-Reforma. Na época essa terra de índios, alguns em guerra com outros, seria disputada por portugueses, franceses, espanhóis e holandeses e, neste contexto o teatro
serviria de instrumento de propaganda. Trata-se de pensar no encontro com o "novo" e pensar sobre o contexto a que pertenceu de certa forma a última
obra de Shakespeare “A Tempestade” retratando
o “Admirável mundo novo”, em que habitavam além da bruxa Sicorax o monstrengo
Caliban, de fato um anagrama de Canibal e o anjo Ariel, dos mistérios barrocos.
A
despeito de que o formato dos textos teatrais do início da colonização esteja
ultrapassado do ponto de vista contemporâneo essas leituras interessam-me como
artista por acreditar na força que estes documentos possuem como elemento compreender
a construção mentalidade contemporânea. Uma mentalidade fundadora que ainda
hoje possibilita o desterro de índios e ribeirinhos para a construção de barragens, para a produção agro industrial e que se diz detentora do significado
de civilização e de nação. Por outro lado, do ponto de vista estético e
político, posso considerar o que esse teatro ou essa influência resulta no
nosso teatro contemporâneo e o que ele indica de resistência.
Será
realizada uma espécie de “ensaio-análise comparativa” em que cruzarei algumas
obras teatrais que são ou que refletem e a idéia do Teatro colonizador e a construção
de uma natureza colonizada do Brasil e a relação entre os seus primeiros
“atores”. Da perspectiva de um artista-pesquisador, que se interessa pela
persistência da memória, este material revela a percepção do encontro com o “outro”:
o europeu, o negro e o ameríndio.
Afetivamente
uma parte do olhar tentará se deter sobre a visão deste americano nato que atravessa
fragilmente nossa história com a permanência apenas do peso pela singularidade,
pela apropriação/expropriação e algumas vezes pela releitura artística de uma
pequena parte da expressão cultural, ou seja, que algumas idéias antropofágicas
trazem no teatro contemporâneo brasileiro,até bem pouco tempo atrás só
acessados por uma minoria intelectual, manipula. Pouco sabemos sobre sua
cultura, suas histórias, seu saber, sua memória e seu conhecimento, porque a
história destes povos são contada pelo “outro”, que somos muitas vezes nós que
recontamos muitas vezes: ainda que nossa mentalidade tenda a nos colocar como colonizados.
É aqui que pretendo romper os meus grilhões.
Em uma visada rápida é importante considerar a abertura
para esse universo que algumas peças me permitem, especialmente sobre a relação
dos Jesuítas com o Brasil,
especialmente: Calabar de Chico
Buarque e Rui Guerra, que a despeito de toda brasilidade é moçambicano; e
também: O Santo Inquérito de Dias
Gomes.
O
texto de Calabar deve ser considerado
como um documento histórico fantástico e também o contexto de sua produção deve
ser algo que devemos apropriar para o que fazemos hoje no teatro, por discutir
de muitas formas a noção que temos de Brasil e de sua formação.
O
Brasil recriado por Chico Buarque de HOLANDA
e Ruy Guerra, como sugere boa parte do texto, não é sequer um Brasil
Português, ou sequer Brasil Holandês, é um Brasil multifacetado com forças que
impulsionam idéias e constroem de acordo com interesses de grupos hegemônicos
forçando a identidade de um povo de acordo com conveniências, sobretudo,
econômicas. Daí tratar de um “traidor” segundo um ponto de vista, que talvez
tivesse a percepção de outro interesse para si ou para seu grupo, mas como a
história é construída pelos vencedores os derrotados são traidores.
Para a manutenção desta idéia o poder
ideológico da igreja católica da época foi fundamental. O serviço prestado pelos
Jesuítas, Companhia de Jesus, para as conveniências econômicas do império
colonial que na época era a sede do “Governo Colonial” na dinastia dos Felipes em um momento que os “Autos de
Fé” ocorriam em Portugal e Espanha. A
expulsão dos mouros, depois a expulsão, conversão ou morte dos judeus era a
abertura de espaços para a consolidação de um poder hegemônico desde o século
XV.
A chegada de Jesuítas,
com a função evangelizadora e ideológica, favorecia o interesse das coroas de
Portugal de Espanha e da Companhia das Índias Ocidentais – Holandesa. Naquele
momento, os jesuítas poderiam servir como justificativa das ações cometidas
contra os “gentios”: Aimorés, Tamoios, Tapuias, Tupinambás, Tupiniquins (o que
por um pensamento colonizador tornou-se expressão para designar algo inferior,
uma identidade inferior, desprezando-os no que era de sua cultura). Pelas
entrelinhas do texto de Anchieta buscaremos penetrar na memória de seus hábitos
e costumes.
Segundo
historiador, Padre Armando Cardoso S. J., a primeira peça foi um auto de Natal:
“Pregação Universal”, “escrita a todos de
todo o Brasil conhecido”, por isso em Português, Tupi e Espanhol,
primeiramente para os moradores da Vila de São Paulo quando deve ter sido
encenada entre 1560 e 1564, e que posteriormente reapresentada em São Vicente
vislumbrou um “prodígio da suspensão da chuva” no dia 31 de dezembro de 1576,
“em que introduziu-se um ato especial de homens brancos, pecadores públicos, de
que nos fala Simão de Vasconcelos” com direito a uma crítica sobre
provavelmente um dos atores, Luís Fernandes:
“Luís
Fernandes representou, em uma comédia, figura de homem escandaloso, pecador a
quem arremeteu o diabo no teatro para o levar. Entrou mais tarde na Companhia,
dizendo ‘ o diabo me quis levar por burlas; não quero que o faça de veras.”
Os demônios desta história são Guaixará e Aimbiré,
Guaixará segundo nota “é o nome de chefe tamoio, aliado dos franceses que
combateu contra Estácio e Mem de Sá em 1565 e 1967”. Transformado em chefe dos
demônios combate os missionários e índios convertidos que está incomodado com
algo “novo” que chegou a sua terra:
“Molesta-me
a boa gente,
Fazendo-me
crua guerra;
o povo está diferente:
quem
o mudou de repente
para
danar minha terra?”
O
comportamento que para o Jesuíta o torna demônio do ponto de vista do religioso
se revela pelos seguintes hábitos que Guaixará defende em sua fala e depois
convoca Aimbiré:
GUAIXARÁ:
“É boa coisa beber
Até vomitar, cauim.
É isto o maior prazer,
Isto sim, vamos dizer,
Isto é glória, isto sim!
Pois só se deve estimar
Moçacara beberrão.
Os capazes de esgotar
O cauim guerreiros são,
Sempre anseiam por lutar
É bom dançar, enfeitar-se
E tingir-se de vermelho;
De negro as pernas pintar-se
Fumar e todo emplumar-se
E ser curandeiro velho
Enraivar, andar matando
E comendo prisioneiros
E viver se amancebando
E adultérios espiando
Não o deixem meus terreiros
Para tal
Vivo ao lado do pessoal
Fazendo-me acreditar.
Os tais padres afinal
Vêm agora me expulsar
Pregando a lei divinal
Tenho fé
Em meu ajudante que é meu mor
colaborador
Queimando no mesmo ardor
O grande chefe Aimberê
Dos índios pervertedor”
Aimbiré
era segundo o Padre Armando Cardoso: “aliado
e sogro de franceses, sumamente valente. Quis matar Anchieta em Iperuí;
combateu no Rio. Transformado em diabo, auxiliar de Guaixará.”
AIMBIRÉ
(...) E o dia inteiro passaram
A dançar, folgar, beber
E as leis de Deus ultrajaram.
Em suma fiquei contente;
E, ao ver a depravação
Tranqüilizei-me: eles dão
Aos vícios de toda gente
Abrigo no coração.
GUAIXARÁ
É por isso
Que em teu grande feitiço
Apóio minha esperança.
Vem cá! Os nomes avança
dos que enlaçaste no enguiço:
E meteste nessa dança.
Aimbiré listará os Tangarás, Maratauãos,
Paraibiquaras... que ao fim são os resistentes ao sermão jesuíta. E depois de
uma pergunta de Guaixará sobre os meios que usava antes do padre:
“Aos Tapuias, dessas velhas
Daqui levo umas parelhas
Para assim se contentarem
As velhas são más de fato:
Fazendo suas magias
Exaltam as fantasias
Lançam a Deus desacato
E a mim enchem de honrarias”
Os Tupinambás,
vencidos por Mem de Sá em Paraguaçu da Bahia, os Temiminós, habitante do que
hoje conhecemos como estado do Espírito Santo, na região de Guaraparim, foram
de Anchieta talvez um dos principais públicos submetidos a sua catequese que
associava elementos de sua cultura a demônios, moralizando os hábitos
“selvagens” e prevenindo-os para os perigosos invasores que poderiam chegar: os
hereges franceses huguenotes.
A
propaganda ideológica conveniente vinha a partir da convicção religiosa que
sustentava a ordem política, e para isso a conversão era necessária daqueles
que ainda não possuíam salvação. Para a conversão o instrumento atraente era a
utilização de dramatizações. Esse teatro pedagógico de formato híbrido que
misturava as culturas permitiu inclusive a inclusão de trechos em Tupi. Era
preciso falar a língua do colonizado para atingi-lo ideologicamente, apresentar
as idéias que deveriam prevalecer.
Neste
contexto parafraseio o Caliban de Shakespeare: “Maldito sejas tu que
ensinaste-me a sua língua agora posso nela amaldiçoar-te”
O
que não se percebia era que haveria uma absorção de um repertório local com a
identidade com o outro. Algum tempo depois, no século XVIII, o trabalho dos
jesuítas acabaria por não ser mais um bom instrumento ideológico conveniente a
política do Marques de Pombal e o Absolutismo esclarecido de Portugal.
O
livro consultado: Teatro de Anchieta,
em que incluem suas obras completas, foi impressa por ordem de Dom João Resende
Costa,S.D.B, com autorização, Imprim
Potest, do Pe. Joaquim F. Pereira, S.J. com o parecer de Pe. Henrique C. de
Lima Vaz, S. J. em São Paulo, 1.o de maio de 1977 pela Edições Loyola.
Evidentemente, existe um cuidado com a imagem da instituição representada. Uma
imagem que deve ser zelada. Um Padre que foi beatificado, uma memória que
merece ser mantida.
É
preciso considerar historicamente a perspectiva dos autores Chico Buarque, Ruy
Guerra e Dias Gomes sobre os textos Calabar
e Santo Inquérito. Ambos os autores
escreveram em um período em que vigorava a censura com posicionamento
evidentemente contrário ao poder instituído. A censura também vigorava sobre os
textos e publicações jesuítas enquanto eles não foram expulsos ou eliminados
pelo Marques de Pombal. Até então as obras precisavam estar condizentes com os
pareceres de superiores religiosos e daí passarem por várias hierarquias até
que pudessem ser eventualmente publicadas.
Em todo o caso todas as obras de todos os
setores estavam submetidas “ao poder de punir” que o poder instituído tinha e
hoje usa de outros mecanismo, talvez mais sutis como a Mídia e o Poder político
e o Poder econômico, ou como disse Dias Gomes no prefácio de o Santo Inquérito:
(...)Se isto não aconteceu exatamente como aqui vai contado, podia ter acontecido, pois sucedeu com outras pessoas, nas mesmas circunstâncias, na mesma época e em outras épocas. E continua a acontecer. Muito embora a Santa Inquisição tenha hoje vários defensores, que procuram amenizar a imagem que dela fazemos e diminuir a responsabilidade da Igreja (a nova Igreja, justiça lhe seja feita, a Igreja de Paulo VI,procura ser, na teoria e na prática, a condenação formal do espírito e dos métodos do Santo Ofício), a verdade é que as razões apresentadas em sua defesa são as mesmas de todos os opressores, quase sempre sinceramente convencidos de que seus fins justificam os meios. São as razões de Hitler, de Franco e de MacCarthy. Vejamos o que diz um desses defensores da Santa Inquisição, o padre José Bernardo: “(...)tanto o Estado como a Igreja se viam em face de um perigo crescente e ameaçador. Toda a sociedade humana, a ordem civil e religiosa, construída com imensos esforços, toda a civilização e cultura do Ocidente, o progresso, a união e a paz estavam ameaçados de dissolução.” Ameaçados por quê? Pelas heresias, sendo o protestantismo e as práticas judaizantes dos cristãos-novos as que mais preocupavam a hegemonia católica. Na defesa dessa hegemonia, justificava-se o emprego de medidas que, embora contrariando o espírito cristão, encontravam acolhida entre os teólogos da Igreja de Cristo. ‘Conforme São Tomás, todo aquele que tem direito de mandar tem também o de punir, e a autoridade que tem o poder de fazer leis tem também o de lhes dar a sanção conveniente. Ora, as penas espirituais nem sempre bastam. Alguns as desprezam. È por isso que a Igreja deve possuir e possui o direito de infligir também penas temporais’(...)
O
texto acima publicado em 1989 por Dias Gomes mostra a sua perspectiva histórica
diante de um Brasil recém “democratizado”. Ao menos abriu-se, teoricamente, a
perspectiva para a contraposição de idéias, porém o modelo de produção ainda
refletia tendências de manutenção do poder e ideológicas que vigoram de maneira
mais sutil do que outrora.
“O
texto O Santo Inquérito foi apresentado pela primeira vez no dia 23 de Setembro
de 1966, no Teatro Jovem, no Rio de Janeiro com os seguintes intérpretes: Eva
Wilma, Rubens Correia, Vinícius Sartori, Jayme Barcelos, Paulo Gracindo, Isaac
Bardavid, Ginaldo de Souza, Direção: Ziembinski, Cenário e Figurinos Giani
Rato. (...)A última versão cênica estreou em São Paulo no dia 25 de agosto de
1977 com direção de Flávio Rangel. A presente edição que considero definitiva,
adota alguns cortes que fiz no texto e segue as rubricas sugeridas por aquele
espetáculo.”[1]
A
peça Calabar – O elogio da Traição
escrita em 1973 teve a 5.a edição publicada em 1975, pelo Círculo do livro, sob
licença da editora Civilização Brasileira S.A. de Chico Buarque com a curiosa
ressalva na sua edição: É proibida a
venda a quem não pertença ao Círculo. Na época uma super produção, a mais
cara do país, envolvendo cerca de 80 pessoas. Produzido por Fernando Torres,
sob a direção de Fernando Peixoto, com direção musical de Dori Caymmi,
Orquestração de Edu Lobo, Coreografia de Zdnek Hampl, Cenários de Hélio
Eichbauer, Figurinos dele e de Rosa Magalhães. O texto começa assim:
“Abre
o pano. Escuridão completa. Sininho de sacristia.
FREI(off):
Agnus Dei qui tollit peccata mundi...
Moradores
(off): Miserere nobis.
FREI(off):
Agnus Dei qui tollit peccata mundi...
Moradores
(off): Miserere nobis.
FREI(off):
Agnus Dei qui tollit peccata mundi...
Moradores
(off - cantando com órgão o Miserere nobis).
Miserere nobis
Miserere nobis
Miserê
Renó
Bis
MiserÊ
Renóbis
Miserere nobis
Luz em crescendo sobre
Mathias de Albuquerque, que se barbeia, um escrivão a seus pés. Um vulto num
instrumento de tortura. Gemidos e coro de moradores servem de fundo ao sermão
do Frei.
FREI
(off)
Era o Brasil antes da chegada dos
holandeses a mais deliciosa, próspera, abundante, e não sei se me adiantarei
muito se disser a mais rica de quantas ultramarinhas o Reino de Portugal tem
debaixo de sua coroa e cetro.
Mathias, rosto ensaboado, navalha na mão
e bandeira rubro-verde servindo-lhe de babador. Um vassalo segura um espelho
que o reflete de corpo inteiro. Mais adiante o escrivão, pena de pato na mão.
Noutro canto, dois soldados apertam o garrote sobre um prisioneiro louro, que
solta um grito lancinante. Soldados adormecidos; fuzis ensarilhados; tudo
sugere um acampamento militar.”
Qual
é a perspectiva do olhar destes dois autores sobre o Brasil Colonial, e qual a
representatividade de seus trabalhos e de suas encenações no momento histórico
em que foram ou seriam ou são encenadas. Qual a conseqüência do trabalho destes
autores? E o que poderíamos distinguir como posição que tomaram?
Evidentemente
podemos compreender mais sobre a produção dos dois. Apontar algumas questões
que são comuns e mesmo as que diferem tanto do ponto de vista técnico, quanto
artístico. Ambas as obras são frutos do materialismo histórico marxista.
Colocam o homem do ponto de vista histórico enfrentando sua condição
contemporânea com referências num passado que é visto com crítica. Este
movimento reformulado do teatro, colocando-o como um teatro engajado nas
questões políticas da época. Em uma rápida panorâmica vemos Chico Buarque de
Holanda, filho do historiador Sérgio Buarque de Holanda, que já havia encenado Roda Viva com a direção de Zé Celso
Martinez Correa no Teatro Oficina, peça cujo elenco foi espancado pelos braços
da política do Regime Militar.
Chico
Buarque estreou seu trabalho teatral quando musicou Morte e Vida Severina do embaixador João Cabral de Mello Neto.
Ainda no Estado Novo, muitos intelectuais e diplomatas tinham a função de
pensar o Brasil, sobretudo a partir do Ministério da Educação, .Quanto a
encenação de Calabar – O elogio da Traição,
esta tinha como diretor Fernando Peixoto que já tinha sido responsável pela
publicação de textos de Brecht no Brasil. Bertolt Brecht que teria a “Ópera de três vinténs” adaptado por
Chico Buarque para a “Ópera do Malandro”,
na cenografia da Ópera do Malandro, a moeda é um cruzeiro com a estampa de
Getúlio Vargas, que no primeiro governo como comandante do “Estado Novo”, estabeleceu
um regime com tendências fascista que resultava na perseguição e proibição do Partido
Comunista, partido ao qual Dias Gomes em um período de sua vida filiou-se.
Ambos
trabalharam durante décadas sob o estado de censura e tiveram que a seu modo
posicionar-se e fazer escolhas muitas vezes, aparentemente, contraditórias,
ambos tiveram seu momento de produções junto a Rede Globo de Televisão que com
seu poder midiático reflete muito a ideologia contrário. Porém, como Brecht,
ambos eram profissionais e articulavam dentro do sistema as possibilidades dos
seus discursos, não se tratavam de radicais extremistas, mas de burgueses críticos.
Segundo
o crítico Eric Bentley, o artista talvez deva ser definido como ‘rebelde
sadio’, como ‘homem não ajustado’ (o que não quer dizer desajustado). Sobretudo
o dramaturgo não pode furtar-se à tarefa de proporcionar aos espectadores, com
certa frequ~encia, espetáculos perturbadores que satisfaçam precisamente por
suscitar insatisfação, por revolverem as águas paradas do habitual conformismo
satisfeito.
Dias
Gomes pertence aos ‘rebeldes sadios’ aos dramaturgos que fazem de sua obra
focos de perturbação. O propósito crítico do autor, nítido nas nove peças
reunidas em volume, realiza-se através de uma variedade de processos
dramáticos. (ROSENFELD,1989apud GOMES,1989,p.38)
Dias Gomes e Chico Buarque trabalharam juntos
em O Rei de Ramos, publicado pela
Civilização Brasileira em 1978. A Editora e a Revista Civilização Brasileira ambas
de propriedade de Ênio Silveira, perseguido por Castelo Branco por suspeitas de
relação com o comunismo, contava com a participação de Dias Gomes na equipe do editorial
em certo momento de sua história. A peça
Calabar, foi publicada pela Editora.
Muitos são os caminhos que cruzam autores idéias e
ideologias. Em nosso caso o que interessa é o olhar destes autores sobre a política colonial e
a relação com a política que foi desenvolvida durante o período em que viveram,
e como usaram da estratégia de deslocar a ação de suas obras para o Brasil
colonial para poder discutir a censura e a repressão, bem como a de discutir
aspectos ideológicos que defendiam e a severa e inteligente crítica que faziam
ao sistema vigente.
[1]
GOMES, Dias Coleção Dias Gomes, Volume 1
– Os Heróis Vencidos: O Pagador de Promessas, O Santo Inquérito, Rio de Janeiro: Ed.Bertrand Brasil, 1989
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